sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Adaptação


Todo ser humano deve satisfazer certas necessidades básicas para se manter vivo, o que inclui alimento, água e abrigo. Além disso, como essas necessidades devem ser atendidas regularmente, nenhuma criatura conseguiria sobreviver por muito tempo se a relação com o ambiente fosse aleatória e caótica.

Nesse aspecto, nós, seres humanos, temos grande vantagem sobre outros animais. Possuímos cultura. Com o tempo, ela se tornou nosso principal meio de adaptação às limitações e possibilidades em qualquer ambiente.



ADAPTAÇÃO

É o processo contínuo pelo qual os organismos passam a fim de se ajustar de modo benéfico a um ambiente específico.

O que torna a adaptação humana singular, entre todas as outras espécies, é a nossa capacidade para produzir e reproduzir a cultura, de modo a se ajustar com criatividade a uma variedade extraordinária de ambientes radicalmente diversos.

A base biológica dessa capacidade inclui cérebro grande e longo período de crescimento e desenvolvimento.

O modo como as pessoas se adaptam às responsabilidades e oportunidades da vida diária é a preocupação básica de todas as culturas. A adaptação cultural de um povo consiste em um complexo de ideias, atividades e tecnologias que permitem a sobrevivência e o desenvolvimento; isto, por sua vez, afeta o ambiente.

Por meio da adaptação cultural cultural, grupos humanos distintos têm conseguido habitar uma grande diversidade de ambientes naturais: da região gelada do Ártico às ilhas de corais da Polinésia, do deserto do Saara à floresta amazônica.

A adaptação não acontece somente quando o ser humano provoca mudanças em seu ambiente natural, ocorre também quando ele é modificado biologicamente pelo próprio ambiente.

Unidade de adaptação

A unidade de adaptação abrange os organismos e seu ambiente. Os organismos, incluindo o ser humano, existem como membros de uma população, que, por sua vez, precisa ter flexibilidade para lidar com a variabilidade e as mudanças no ambiente natural que a sustenta.

Em termos biológicos, essa flexibilidade significa que organismos diversos dessa população apresentam diferenças nos dotes genéticos naturais.

Em termos culturais, significa que a variação ocorre nas habilidades individuais, no conhecimento e na personalidade.

Na verdade, organismos e ambientes formam sistemas interativos dinâmicos. Embora o ambiente não determine a cultura, ele apresenta certas possibilidades e limitações: as pessoas podem cultivar ou pescar com facilidade, mas não se encontra agricultor na tundra congelada da Sibéria, ou um pescador no meio do deserto do Saara.

Alguns antropólogos adotaram o conceito de ecossistema dos ecologistas, definido como um sistema, um todo que funciona, composto pelo ambiente natural e por todos os organismos que nele vivem. O sistema é limitado pelas atividades dos organismos, assim como por processos físicos como erosão e evaporação.


Adaptação na evolução cultural

Os grupos humanos se adaptam ao ambiente através da cultura. Entretanto, ela pode se modificar com o tempo: sofre evolução cultural. Esse processo, às vezes, é confundido com a ideia de progresso, a noção de que o ser humano se move para um estágio mais alto e mais avançado no desenvolvimento em busca da perfeição.

Contudo, nem todas as mudanças são positivas, no longo prazo, tampouco melhoram as condições para todos os membros da sociedade, no curto prazo. As sociedades urbanas complexas não são mais evoluídas que as dos povos coletores. Ambas são altamente evoluídas, de formas bem diferentes.

Para se adequar a um ecossistema, o ser humano (como todos os organismos) deve ter potencial para se ajustar a ele ou se tornar parte dele.

Um bom exemplo são os comanches, cuja história começa na região alta do sul do estado de Idaho. Vivendo numa região árida e difícil, esses indígenas norte-americanos sobreviviam de modo tradicional, se alimentando de plantas selvagens, pequenos animais e, ocasionalmente, de caça de maior porte. O equipamento material era simples e limitava-se ao que eles (e seus cachorros) conseguiam carregar ou puxar. O tamanho do grupo era restrito e a pequena força social que conseguia se desenvolver estava nas mãos do xamã, uma combinação de curandeiro e guia espiritual.

Em algum momento de sua história nômade, os comanches se mudaram para leste, região das Grandes Planícies, atraídos pelas imensas manadas de bisões. Como grupos maiores conseguiam se sustentar com o suprimento novo e abundante de alimento, os comanches precisavam de uma organização política mais complexa. Por fim, adquiriram cavalos e armas dos europeus e de outros mercadores indígenas das regiões vizinhas. Isso aumentou de modo significativo sua capacidade para caçar e provocou o surgimento de chefes caçadores poderosos.

Os comanches passaram a praticar ataques para conseguir mais cavalos (pois não os criavam) e seus chefes caçadores se transformaram em chefes guerreiros. Os antigos caçadores-coletores, materialmente pobres e pacíficos das regiões altas e secas, ficaram ricos, e os ataques passaram a ser um modo de vida.

Entre o fim do século XVIII e o início do XIX, eles dominaram as planícies do sul (atualmente Texas e Oklahoma). Ao se mudar de um ambiente para outro e adotar novas tecnologias, os comanches conseguiram aproveitar as capacidades culturais existentes para se desenvolver nessa nova situação.

Às vezes, sociedades que se desenvolveram independentemente uma da outra encontram soluções semelhantes para problemas parecidos.

Por exemplo, os indígenas cheyenne se mudaram da região de florestas dos Grandes Lagos para as Grandes Planícies e assumiram uma forma de cultura que lembrava a dos comanches, embora o passado histórico-cultural dos dois grupos fosse significativamente diferente. (Antes de se transformarem em caçadores de bisão que utilizavam cavalos, os cheyenne eram agricultores e colhiam arroz selvagem, o que promovia um conjunto distinto de práticas religiosas, políticas e sociais.

Esse é um exemplo de evolução convergente, o desenvolvimento de adaptações culturais semelhantes, em condições ambientais similares, por povos diferentes, com culturas ancestrais distintas.

Particularmente interessante é o fato de que os cheyenne abandonaram por completo a agricultura e se concentraram de modo exclusivo à caça e a coleta, depois de mudarem para as imensas pastagens, no norte das Planícies Altas.

Ao contrário da noção popular de evolução como movimento progressivo para a manipulação cada vez maior do meio ambiente, esse exemplo etnográfico mostra que as mudanças histórico-culturais nas práticas de subsistência nem sempre ocorrem da dependência de alimentos selvagens para a agricultura; o inverso também pode acontecer.

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